terça-feira, 30 de novembro de 2010

O agente comunitário de saúde no controle da tuberculose: conhecimentos e percepções

Ethel Leonor Noia Maciel; Rafael da Cruz Araújo Vieira; Eliani Carrara Milani; Mário Brasil; Geisa Fregona; Reynaldo Dietze

Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil

março 2005


RESUMO

Este estudo analisa o conhecimento dos agentes comunitários de saúde no controle da tuberculose e a autopercepção do seu nível de conhecimento e de sua importância no enfrentamento da doença, no Município de Vitória, Espírito Santo, Brasil. Tratou-se de um estudo de corte transversal. Um questionário semi-estruturado, auto-aplicável e pré-testado foi preenchido por 105 agentes comunitários de saúde randomicamente selecionados. A comparação das proporções entre os grupos formados pela estratificação por tempo de serviço foi realizada usando-se o teste qui-quadrado com nível de significância de 5%. A idade média foi de 34,5 (± 9,7) anos. Atuavam há três anos ou menos 66 agentes comunitários de saúde (62,9%). Observou-se que um maior tempo de atividade está relacionado com um aumento do nível de compreensão em torno da doença, bem como das atividades efetivamente realizadas no controle da tuberculose. Contudo, de maneira geral, os conhecimentos e as ações do agente comunitário de saúde mostraram-se muito falhos. Entende-se que com melhorias na educação permanente desses profissionais seria possível uma maior contribuição deles para o aumento da detecção de novos casos na comunidade e para maior adesão dos pacientes ao tratamento.

Atitude do Pessoal de Saúde; Tuberculose; Conhecimento

Introdução

Passada mais de uma década de sua declaração como um problema emergencial de saúde 1, a tuberculose permanece sendo, entre as doenças infecciosas, a principal causa de óbitos entre adultos ao redor do mundo 2. As estimativas mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam o surgimento de 8,8 milhões de novos casos e 1,6 milhão de mortes por tuberculose. Para o Brasil, a cada ano surgirão 111 mil novos casos 3, dos quais 85 mil são notificados ao Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), perfazendo uma taxa de incidência de 47/100 mil habitantes 4. Tendo em vista a situação calamitosa do (des)controle da tuberculose no país, ao longo das décadas anteriores, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), por meio da Resolução nº. 284 de 6 de agosto 1998, definiu a tuberculose como um problema prioritário de saúde no Brasil e estabeleceu diretrizes gerais de ação e metas para o Programa Nacional de Controle de Tuberculose (PNCT) 5.

Seguindo a diretriz do PNCT de "horizontalização" do combate à tuberculose, por meio da expansão de suas atividades para todos os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), todos os planos nacionais e consensos para o controle da tuberculose que se seguiram enfatizaram a sua integração à atenção básica utilizando-se a Estratégia Saúde da Família e, em específico, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), como forma de ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento da tuberculose em todo o Brasil 6.

Desde 1978, ano em que se realizou em Alma Ata, antiga União Soviética, a Conferência Internacional sobre Atenção Primária à Saúde, gerou-se grande expectativa em torno do trabalho dos agentes comunitários de saúde como atores nesta estratégia de extensão de cobertura, sendo declarado explicitamente que "ao nível inicial de contato entre os indivíduos e o sistema de serviços de saúde, os cuidados primários são proporcionados por agentes de saúde da comunidade trabalhando em equipe" (Declaração de Alma Ata, 1979, apud Giffin & Shiraiwa 7, p. 50).

Na Estratégia Saúde da Família, portanto, espera-se que o agente comunitário de saúde assuma um posto muitas vezes central, pois além de residir na comunidade em que atua, mostra-se familiarizado com seus valores, costumes e linguagem, podendo assim produzir uma união entre o uso de tecnologia/conhecimento em saúde e as crenças locais. O agente comunitário de saúde seria, então, um facilitador, capaz de construir pontes entre os serviços de saúde e a comunidade, identificando prontamente seus problemas, atuando no trabalho de prevenção de doenças e promoção da saúde 7,8,9.

No controle da tuberculose, espera-se basicamente que esse profissional seja capaz de identificar na comunidade, por meio de visitas domiciliares, aqueles indivíduos que apresentem tosse por três semanas ou mais (sintomático respiratório) e encaminhá-los aos serviços de saúde para pesquisa de tuberculose (busca ativa). Além disso, que orientem a família e a comunidade, acompanhem a tomada dos medicamentos pelos pacientes (tratamento supervisionado) e organizem reuniões com os membros da comunidade 10.

Apesar de definitivamente incorporado ao controle de tuberculose em diversas partes do mundo, em especial onde o tratamento diretamente observado apresenta alta cobertura 3, pouco se conhece da atuação do agente comunitário de saúde no PNCT de nosso país. Em vista disso, este estudo busca analisar os conhecimentos sobre as ações desenvolvidas pelos agentes comunitários de saúde no controle da tuberculose e a percepção que estes possuem do seu nível de conhecimento e de sua importância no enfrentamento da doença, no Município de Vitória, Espírito Santo.



Metodologia

Tratou-se de um estudo descritivo de corte transversal. A população base foi composta pelos 370 agentes comunitários de saúde atuantes nas 24 Unidades de Saúde da Família do Município de Vitória, em março de 2005. Utilizou-se o programa Epi Info versão 3.3.2 (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos) para realizar o cálculo, e para não se arbitrar nenhum valor utilizou-se o valor máximo de prevalência de conhecimento sobre as ações para o controle de tuberculose esperada de 50%, maximizando-se assim o tamanho da amostra esperada, obtendo-se o quantitativo de 107 agentes comunitários de saúde para esta população base.

Como as unidades estão divididas por seis (6) regiões de saúde, foi realizada uma amostragem aleatória por conglomerado. Cada região foi considerada como um conglomerado, sendo sorteadas dentro de cada um as unidades onde foram feitas as entrevistas. Utilizando-se o programa Microsoft Excel (Microsoft Corp., Estados Unidos) foi realizado um sorteio aleatório, levando em consideração o plano amostral de pelo menos uma unidade de saúde por região. Dessa forma, foi escolhida randomicamente a partir da seleção final sete Unidades de Saúde da Família que perfizeram uma total de 125 agentes comunitários de saúde atuantes.

A coleta dos dados foi realizada utilizando-se um questionário semi-estruturado, auto-aplicável e pré-testado fornecido a todos os agentes comunitários de saúde das Unidades de Saúde da Família selecionadas para obter as informações de interesse do estudo. Tal questionário era composto por perguntas fechadas e abertas e foi elaborado com base na cartilha Tuberculose: Informações para Agentes Comunitários de Saúde 11, no Manual Técnico para o Controle da Tuberculose: Cadernos de Atenção Básica 12 e no Controle da Tuberculose: Uma Proposta de Integração Ensino-Serviço 10, que trazem informações básicas para o agente comunitário de saúde sobre a doença e suas atribuições. Para as respostas discursivas, a análise da correção destas deu-se de maneira objetiva, sendo definidas como certas ou erradas conforme a presença ou não de palavras ou expressões-chave, núcleo do conhecimento avaliado. Esse instrumento foi validado em uma unidade de saúde da região de Maruípe com seis agentes comunitários de saúde, e as repostas obtidas não diferiram dos resultados encontrados por este estudo em relação as três categorias nas quais o instrumento foi dividido: (i) conhecimentos do agente comunitário de saúde acerca dos aspectos clínico-epidemiológicos da tuberculose; (ii) informações sobre as atividades realizadas pelo agente comunitário de saúde no controle da tuberculose e (iii) percepção do agente comunitário de saúde quanto ao seu nível de conhecimento e sua importância no controle da tuberculose.

Os dados obtidos por meio dos questionários foram transferidos para a planilha eletrônica Microsoft Excel. As análises estatísticas foram conduzidas no pacote estatístico Stata 9 (Stata Corp., College Station, Estados Unidos). Realizou-se o cálculo da média e desvio-padrão da idade e do tempo de trabalho dos agentes comunitários de saúde e das proporções das demais variáveis. A fim de investigar a influência do tempo de serviço como agente comunitário de saúde sobre as respostas dadas, a amostra foi estratificada de acordo com a mediana em dois grupos: (a) agentes comunitários de saúde com três anos ou menos de serviço e outro (b) com quatro anos ou mais de serviço. Na avaliação comparativa das variáveis estudadas empregou-se o teste de associação do qui-quadrado com significância menor que 0,05.

O projeto foi previamente autorizado pela Secretaria Municipal de Saúde de Vitória e recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, de acordo com o que é estabelecido pela Resolução nº. 196. Todos os participantes que aceitaram contribuir com o estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e foi garantido sigilo das informações. Nesse sentido, para manter a confidencialidade do estudo, optou-se por não revelar o nome das unidades selecionadas, uma vez que, todos os agentes comunitários de saúde lotados nestas unidades amostrais concordaram em participar do estudo e responderam ao instrumento.

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